sexta-feira, 22 de julho de 2016

FLOR DE FERRO na PRAÇA PARIS








Exosição de Esculturas Monumentais





O Mundo é maravilhoso.
O universo, as estrelas,  uma paisagem, uma pessoa podem nos deixar extasiados e plenos de beleza. Porém, talvez na mesma proporção, o horror está presente. Bem e Mal caminham juntos e permeiam nossa vida. Penso que a única saída, o único remédio para nossa tristeza e nosso pavor é a arte, pois só ela é capaz de transformar o feio no belo, a agonia em êxtase. Não somos ingênuos para pensar que o mundo pode ser só felicidade. Num samba muito popular, Vinícius de Moraes diz que “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza”.  Assim como a flor que nasce da lama e se alimenta do esterco, num ciclo perene de vida e morte, a criação se alimenta do sofrimento, da angústia, do drama. O grito do bode, a tragédia, faz a catarse através da arte e nos tira do inferno para nos alçar ao céu.

Fico muito feliz em participar, a convite de Paulo Branquinho e Maria Izabel Noronha, para participar da “Exposição de Esculturas Monumentais da Praça Paris”. Esculturas e Natureza se complementam e além disso, é sempre um desafio criar uma nova peça, sob encomenda, para um lugar especial, bonito e tradicional como a Praça Paris, na companhia de grandes artistas e ainda por cima, criar uma “escultura monumental”. 
As flores são obras de arte da Natureza. São delicadas, são coloridas, são perfumadas, mas podem ter espinhos, podem queimar podem até envenenar. Para minha participação nesta grande exposição,  pensei em esculpir uma grande flor de ferro. Ser capaz de capturar a leveza, a imponência, o mistério e a delicadeza de uma flor, por material duro, perene e pesado como as chapas e perfis de ferro. Talvez o alimento dessa flor esteja no lamaçal político/econômico/jurídico em que estamos vivendo. Pretendo ver minha flor como uma saída, um chamado, uma conclamação para a catarse, para a transformação.
Só a Arte salva. 


segunda-feira, 9 de maio de 2016

PERGUNTA: Qual foi o bestalhão que inventou essa história de: “MAMADORES DA LEI ROUANET”
(Referência Fábio de Sá Cesnik)
Volta e meia observo ataques a artistas do tipo: “Fulano mama na Lei Rouanet” ou “fulano é PT porque mama na Lei Rouanet”. O que será que passa na cabeça dessa gente. Ignorância, inveja, despeito, burrice?
É curioso que todo mundo precisa da arte, todo mundo frequenta cinema, vai ao teatro, ouve música, dança, vai a eventos, mas alguns se revoltam quando se dão conta que o evento, o CD, o filme, a peça precisa ser paga e que o artista tem que ganhar a vida.
“O incentivo à cultura iniciou no Brasil com a vinda da corte de D. João VI para o Rio de Janeiro. Nesta primeira época do Brasil Colônia, são criadas a Biblioteca Nacional, e a Ópera Nacional, a Academia Imperial de Belas Artes. A partir de 1937, a cultura passa a ser entendida como ferramenta de propaganda, que tem seu exemplo mais claro no regime de Getúlio Vargas. Vários institutos são então criados, como o do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o da Música e do Livro, para ficar apenas em alguns exemplos.
Em 1940 e 50 que se inicia um processo de investimento privado sem a participação do Estado. Iniciativas, como as dos empresários Franco Zampari e Francisco Matarazzo Sobrinho, criadores do MAM e Companhia Vera Cruz respectivamente, eram realizadas menos por um estímulo público do que por vaidades pessoais.
Este processo, porém, foi interrompido pela ditadura militar iniciada em 1964 e pelas ações de Collor, que extinguiu todos os organismos de cultura existentes até então.
O quadro só foi revertido a partir de 1990, quando o setor cultural passa a buscar os Estados e Municípios para iniciar uma política de investimentos em cultura baseada na Lei Sarney, criada em 1986.” O primeiro mecanismo fiscal que surge é a Lei Mendonça em 1990, do município de São Paulo, seguida da Lei Rouanet em 1991 e a do Audiovisual em 1993, ambas federais.”
Esse tipo de incentivo existe para promover cultura, para tentar elevar o nível intelectual e artístico do país.
Além dos Incentivos à Cultura, existem diversos outros incentivos criados pelo Governo para beneficiar todos os setores da economia. Incentivos à Energia, transporte, esporte, saúde etc. Existem as Zonas Francas, os subsídios à agricultura, ao meio ambiente, apoios como os do BNDES oferecidos a grandes empreendimentos ou a pequenos negócios atendendo todos os setores da economia criando linhas de crédito inclusive para pessoas físicas (caminhoneiros, produtores rurais e microempreendedores) e órgãos da administração pública (municipal, estadual e federal). Existe o Bolsa Família mas também o “Bolsa Empresário” e o “Bolsa Banqueiro” o “Bolsa Mutuário”.
Diante disso, ficam as perguntas:
1 – Alguém reclama de um caminhoneiro ou um taxista que levanta crédito através do BNDES?
2 – Quem reclama do “Bolsa Banqueiro” ? (o custo do Governo para acumular reservas internacionais e beneficiar o sistema financeiro.)
3 – E os investimentos, apoios e incentivos para funcionários do Legislativo e do Judiciário?
4 – Quem reclama do apoio à indústria automobilística, à plantação monocultural de soja transgênica ou de cana de açúcar para combustível ou à agropecuária que acaba com as florestas e com a camada de ozônio?
5 – Porque então o artista ou produtor cultural que se beneficia dos incentivos previstos nas Leis de Incentivo Cultural, leis que existem desde o tempo do Império e que não foram inventadas nem implementadas pelo PT ou pela Dilma, são taxados de vagabundos, de aproveitadores, de mamadores, interesseiros ou coisa que o valha?

segunda-feira, 25 de abril de 2016



O VALOR DAS COISAS

ÁRVORE DA FELICIDADE

“O que é que pesa mais:
Um kilo de chumbo na cabeça
Ou um Kilo de penas embaixo da cabeça
No travesseiro quando a gente sonha?”
(L’Opéra de la Lune - Jacques Prevert)


Estranho esse negócio de valor das coisas. Em princípio, para os homens, as coisas mais valiosas deveriam ser aquelas que sem elas nós não viveríamos. Paradoxalmente essas são as mais baratas, na realidade são gratuitas e por não custarem dinheiro elas são frequentemente as mais desprezadas, as menos valiosas em termos de cuidado e carinho por parte dos homens. O ar por exemplo; não vivemos mais do que alguns minutos sem respirar. O ar é o principal bem da humanidade e praticamente ninguém lhe da valor. Os homens destroem as florestas que purificam o ar, criam animais e gerigonças que emitem gazes tóxicos,  poluem a atmosfera, nos sufocam aos poucos e pouca gente se importa com isso.
A água, que sem ela não vivemos mais do que poucos dias, pode ser encontrada de graça em fontes espalhadas pela Natureza, mas quase todas estão hoje em dia poluídas por metais, dejetos, esgotos e toda sorte de porcarias.
Outro bem precioso é o Tempo. O tempo é uma das únicas coisas que passam para sempre e que nenhum dinheiro é capaz de nos devolver o passado. Quantas pessoas jogam o tempo fora sem o menor cuidado, como se elas fossem eternas?
Não vou me estender mais falando da amizade ou do amor pois pretendo discutir as coisas que os homens dão valor e não aquelas que eles descartam.
As pessoas só valorizam aquilo que custa caro. Ouro, diamantes, joias, automóveis, artigos de luxo. Eu pergunto uma coisa: se você está no deserto, longe de tudo, o que é que vale mais, uma cesta de maçãs de ouro ou uma cesta de frutos de maçã?
Soldados de Napoleão invadiram a Rússia e saquearam a população, arrombaram castelos, roubaram tudo o que puderam, e ao voltar para casa foram pegos pelo inverno. Todo o peso que carregavam foi retardando o caminho na neve e eles se viram obrigados a abandonar aos poucos os tesouros que haviam roubado. Quase todos acabaram morrendo nos campos gelados.
Pessoas se matam por causa de um relógio que não serve pra nada, a não ser pra mostrar para as outras pessoas que elas pagaram caro pra comprar aquele relógio e que estão prontas a morrer por ele.
O valor das coisas é portanto relativo. O lixo é por definição composto de objetos sem valor. Coisas que ninguém quer mais e por isso descartou, jogou fora. Olhamos para o lixo com repulsa, com desprezo total.
O que acontece porém quando mudamos o foco, quando por algum motivo retiramos do lixo ou do abandono, determinado objeto e lhe damos uma nova vida? Marcel Duchamp foi o precursor da Arte Contemporânea quando elevou  à categoria de obra de arte, objetos encontrados  por acaso, “objets trouvés”, por ele expostos em galerias e museus.  Quando criamos uma obra de arte, e não importa se ela é feita de ouro, bronze, tinta ou até mesmo de cocô, como as latinhas  “merde d’artiste” de Piero Manzoni, o valor da obra passa a ser o valor que nós cobramos por ele. Manzoni estipulou que suas latinhas com 30 gramas “de merda” valeriam o mesmo que 30 gramas de ouro, e vendeu 90 latinhas, que hoje em dia, pertencem à coleções públicas e particulares em diversos países do mundo e valem cada uma muito mais do que o equivalente a 30 gramas de ouro.

Convidado por meus amigos, o fotografo/biólogo Ricardo Gomes e o empreendedor socioambiental Ariel Kozlowski a fazer uma obra com objetos encontrados em uma praia poluída da baía de Guanabara, recolhi num dia de sol do mês de abril, alguns pedaços de madeira e um punhado de tampinhas de garrafa de plástico. Nem as madeiras nem as tampinhas tinham qualquer valor, ninguém as queria mais e por isso elas se encontravam jogadas na areia, poluindo a praia. Pensei que se aquelas tampinhas fossem brilhantes, se fossem de ouro, elas valeriam muito dinheiro. Pensei que retiradas o lixo e transformadas em uma obra de arte, elas passariam a ter o valor que eu estipulasse. Pintei as chapinhas de dourado, envernizei as madeiras, construí cuidadosamente uma obra que será coberta por uma redoma de acrílico. Aquelas madeiras e tampinhas haviam saído cada uma de um lugar diferente, num momento diferente e chegado juntas àquela praia onde foram escolhidas por mim, a pedido de meus amigos, para virar um objeto artístico criado por minha intuição, por sua vez moldada através de anos dedicados às artes. Por causa disso, elas deixaram de ser lixo para se tornar arte e por causa disso elas passaram a ter valor.
Chamei minha obra de “Árvore da Felicidade” e resolvi que minha “Árvore” valeria R$10.000,00.
Sim, minha “Árvore da Felicidade” vale no mínimo dez mil reais pois eu não a venderei por menos de dez mil reais. Obviamente ninguém é obrigado a concordar ou a pagar este valor, mas quem quiser adquirir, quem quiser possuir essa obra, terá que pagar o preço que eu acho e quero que ela valha e que por isso ela passa a valer.

No caso de venda, o dinheiro será inteiramente doado ao projeto Mar Urbano Baía de Guanabara #marurbano

   

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015


JE SUIS CHICO (ou queria ser)



Depois do constrangedor episódio ocorrido com Chico Buarque no Leblon, quando um punhado de mauricinhos, coxinhas, playboys ou algo do gênero, interceptaram o artista e lhe disseram besteiras do tipo: “é fácil ser PT se você mora em Paris” ou “você apoia o governo pra se aproveitar da Rouanet”, eu me pergunto que espécie de país é esse que o Brasil está virando. Infelizmente aqui o conceito de elite é unicamente pautado na riqueza. O sujeito não precisa ter educação, respeito, cultura, honestidade, inteligência para pertencer ou pensar que pertence à elite, o sujeito só precisa ter dinheiro, ou ser filho de pai que tem dinheiro para pensar que pode tudo. Uma elite deve ser pautada na bondade, no decoro, na altivez, na decência, na dignidade, no cavalheirismo, na hombridade, na cultura. Uma amiga minha moradora do Leblon, me contou que em uma reunião de condomínio no seu prédio, alguns moradores queriam duplicar o preço do condomínio e quando ela se opôs, um deles falou: “olha, existem prédios mais baratos, porque você não se muda para um deles?” Na realidade, o que queria esse condômino não era melhorar a qualidade de seu prédio, mas tentar expulsar todos os moradores que não fossem tão ou mais ricos do que ele. Outro dia, quando meu filho almoçava num restaurante no Leblon, um desses sujeitos que se acha da elite o abordou gritando: “Voce não é PT ? Porque não vai comer no bandeijão ?” Ora, meu filho nem é PT, ele simplesmente tem ideias socialistas, ele espera viver numa sociedade mais justa onde todos têm as mesmas oportunidades.  Essa “elite”pautada no dinheiro é tão ignorante, que não entendeu ainda que não adianta ter muito dinheiro num país cheio de miseráveis. Eles dizem basta à violência, mas não entenderam que a maior causa de violência é a diferença social. Uma coisa é voce ser pobre, outra coisa é ser pobre e ver ao lado pessoas esbanjando ostensivamente, jogando dinheiro fora e te olhando com desprezo.  

Aos que mandam o Chico Buarque se mudar para Paris eu digo: mudem-se vocês para Namíbia ou para Serra Leoa, la voces encontrarão um país com mais desigualdade social do que o Brasil, lá quem sabe vocês serão felizes. 

O Brasil que me orgulha, o Brasil que eu quero morar, é o Brasil do Chico Buarque. Se algum dia Chico se encher dessa “elite” ignorante e se mudar de vez para Paris, eu procurarei me mudar também. JE SUIS CHICO (ou queria ser).

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Estátuas Urbanas: Ter ou não Ter?

Oscar Wilde, com uma ponta de ironia, escreveu no prefácio de Dorian Gray que “toda arte é inútil”. A ironia está no fato de que não só o que é útil é bom. A Beleza não é útil, um perfume não é útil, um sabor, uma cerveja, uma praia, uma relação sexual sem intenção de gerar filhos, nada disso tem utilidade, porém os homens estão sempre buscando esses prazeres inúteis. O prazer da arte é impalpável, e por isso, muitas vezes os artistas são atacados, como se fossem seres inúteis, aproveitadores e desnecessários. Fídias, um dos maiores escultores da história, autor de uma Pallas Athena de cerca de 12 metros de altura, acabou sua vida na prisão, por discordâncias políticas e intrigas da oposição ao governo de Péricles. O escultor francês Auguste Rodin foi motivo de chacota em Paris, quando fez seu Balzac. Ludwig II da Baviera foi tido como louco quando construiu o feérico Castelo de Neuschwanstein e acabou sendo deposto. Hoje em dia, ninguém questiona a legitimidade da estátua do Cristo, no Corcovado, ou da estátua da Liberdade em Nova Iorque, ou das catedrais góticas, ou do Coliseu em Roma, ou do Parthenon em Atenas, ou das pirâmides e das esfinges do Egito. Muito pelo contrário, milhares de pessoas viajam pelo mundo especialmente para conhecer e fotografar essas e outras obras, porém, todas elas causaram polêmica na época em que foram feitas. Essa relação de amor e ódio que os homens tem com a arte, já levou a dizimação de milhares de obras ao longo da história. No início do ano de 2015, vimos com enorme desgosto membros do Estado Islâmico destruírem a marretadas, peças antiquíssimas no Iraque, obras ilustrativas do início da civilização. A arte é a alma do povo. Não existe sociedade sem arte.Algumas pessoas criticam o número de estátuas que existem no Rio de Janeiro. Tudo o que se constrói tem quem queira destruir, mas isso não quer dizer que a coisa tenha que ser destruída. 
Todos sabemos que o Rio de Janeiro tem problemas de circulação, de transporte, de habitação, de poluição, de desigualdade social, de falta de educação, de corrupção e muitos outros. As estátuas não são problema. As estátuas são pelo contrário, pontos de contemplação, de cultura, de reconhecimento, de descanso, onde as pessoas param pra ver, pra aprender, pra tirar fotos, pra conversar e por um momento se esquecer dos problemas que as assolam.Um dia, no futuro, quando muita coisa estiver mudada e quando nenhum de nós estiver no Planeta, as esculturas (se não forem destruídas para alimentar a indústria bélica) estarão firmes e fortes, testemunhando para as futuras gerações, ou para visitantes extraterrestres o que tinha de melhor na nossa civilização.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015


Carnet de Voyages   




Um livro com desenhos e textos sobre lugares por onde andei em diversas épocas.

Encomendas pelo site: http://blur.by/17v7cfc

 Às vésperas de entrar no que algumas pessoas ironicamente chamam de “melhor idade”, venho pensando que a vida é uma viagem. O que fica, ou o que levamos para sempre, nossa bagagem, é uma espécie de “carnet de voyage”, um livro em branco onde vão se escrevendo histórias, se pintando quadros, se guardando retratos. Pra alguns a viagem é mais longa pra outros mais curta, uns aproveitam mais, outros menos, mas o fato é que para todos, ela sempre passa muito rápido. O mundo é um palco infinito de cenários, e por mais variada que seja a vida, não existe tempo suficiente pra se conhecer todos os lugares, pra se ler todos os livros. Temos que fazer escolhas. Escolher uma viagem às vezes é como escolher um prato num restaurante que você já conhece. Repetir o que você já sabe que é bom ou arriscar uma nova opção? O apelo de reviver o que a gente gosta é grande, e acaba que muitas vezes repetimos o pedido e deixamos de conhecer pratos novos. Meu carnet de viagens tem muito lugar repetido. Sempre que posso volto à França como um pombo volta pra casa, por isso ainda não conheço a Hungria, a Russia, a Croácia, a Escandinávia e milhões de outros lugares. Apesar disso já estive perto do polo sul, ja fui ao Canadá, aos Estados Unidos, ao Caribe, ao Peru, ao Uruguai, a alguns países da Europa, e claro, tem muita coisa no Rio de Janeiro que eu amo apesar de tudo. O meu carnet de voyage, não é um guia turístico dos lugares por onde passei, mas o registro de alguns que ficaram na memória, nem sempre por serem mais bonitos ou melhores, mas por terem de alguma forma deixado uma marca recente, que eu tento transcrever aqui com desenhos e textos. 
E que venha a terceira idade, como vem o inverno, ainda que cheio de frio e de neve, consegue nos surpreender e nos admirar. 

domingo, 11 de janeiro de 2015

HUMOR/AMOR:


Na escola (francesa) onde estudei, eu tinha a mania de fazer caricaturas de alunos e professores. Um dia entrou um aluno novo. Ele era grande, forte e queixudo. Comecei a fazer caricaturas dele como um grande urso no quadro negro. Vendo que todo mundo ria, ele chegou pra mim e disse: "Olha só. Para de me desenhar porque se voce não parar eu vou desenhar voce de um jeito que voce vai se arrepender". Achei a ameaça engraçada e continuei a desenha-lo cada vez mais, cada vez mais mais urso. Todo dia ele vinha com a mesma ameaça: "Para com isso, quando eu resolver te desenhar voce vai se arrepender". Curioso com caricatura que ele faria de mim, eu o desenhava cada vez mais animal, e a classe ria sempre mais. Eu chegava na sala, pegava o giz e começava a desenhar o urso no quadro. Um dia então, no limite de sua paciência, ele me chamou num canto e disse: "Olha só. Se voce continuar me desenhando eu vou QUEBRAR A SUA CARA". Apesar de meio assustado, continuei a desenhar ele, a classe continuou a rir, e em vez de quebrar a minha cara, ele começou a rir também. Fez uns desenhos de mim, eu fiz outros dele, os desenhos viraram tiras, situações, pequenas histórias, e nós viramos amigos. Não nos vemos nunca, mas somos amigos até hoje. Acho que ele teve a inteligência de entender que mesmo na crítica existe uma reverencia. Que no humor tem também amor.
A vida sem humor é feia, sem graça, estúpida e sem amor.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

EXPOSIÇÃO COLETIVA DE UM CARA SÓ


Ao ver o conteúdo de minha exposição, do Parque das Ruínas, um respeitável curador me disse:
“Mas como juntar esses trabalhos tão diferentes? essa sua exposição não parece uma individual, mas uma exposição coletiva de um cara só. Se eu fosse você eu dividiria isso tudo e faria pelo menos cinco exposições diferentes.” 

E eu pensei:
“Puxa, ele está certo. Pelo menos é o que eu tenho notado nas exposições individuais que eu tenho visitado ultimamente.  Salas “clean”, muito pouca coisa para se ver. Mas eu acho que uma exposição deve representar o artista que está expondo, e o fato é que eu sou um, mas não sou um cara só. Faço esculturas, faço músicas, desenho, pinto, soldo, toco sax, toco clarinete, componho, faço filmes, pego onda, fui advogado, fiz curso de criador de cabra, velejei, toco piano. Sou brasileiro mas sou francês, morei nos Estados Unidos e gosto de argentinos (entre outros, eles fizeram Piazzolla).  Sou só, mas vivo acompanhado. Se pudesse, eu viveria 10 vidas ao mesmo tempo. Seria músico de orquestra, seria surfista internacional, teria um grupo de Jazz, moraria num veleiro, moraria no Rio, na Ilha Grande, em Nova York, em Paris, na Provence,  em Londres, viveria na Grécia do século V, na França medieval, na Viena clássica, na Alemanha romântica, em Paris da Belle Époque, em Paris de agora. Moraria também nos EUA dos oitocentos e teria um rancho no Velho Oeste com uma mulher de vestido de quadradinho. Viveria em Chicago dos anos 30, em Nova Yorque dos 60, atravessaria o país com o Kerouak, tocaria em Woodstock, frequentaria a Factory, faria monumentos em bronze e esculturas de ferro e mármore. Filmaria peças de teatro e filmes, montaria musicais, seria um grande esquiador.
Infelizmente eu acho que não posso fazer tudo isso porque fui condenado a ser uma só pessoa. Dentro dessa pessoa porem, existem muitas outras que querem e fazem coisas diferentes. Muitas fazem arte, e na Arte existe um mundo enorme a ser descoberto. Imaginem ser um músico especialista em Beethoven. Sim, uma única música de Beethoven já é um mundo. Imagina ser um pintor especialista em pintar flores. Isso já é outro mundo. Respeito os especialistas, aqueles que só fazem uma coisa, que só tocam uma música, mas peço desculpas aos que acham que todo mundo deve ser assim. Eu não sou. Quero tocar todas as músicas que conseguir, quero esculpir tudo o que puder. E o trabalho que fecha minha exposição, é um quadro que leva o nome de todas as pessoas (ou quase) que contribuíram para a realização desta exposição. Foram mais de 140 pessoas que fizeram dessa exposição, “uma coletiva de uma pessoa só”



Gosto de conversar  com o Charles Möeller.  Charles é ator, arquiteto, desenhista, escritor, figurinista, diretor de teatro, e a meu pedido escreveu uma letra que eu musiquei para tocar no dia da inauguração. Como artista múltiplo que é, Charles escreveu também uma apresentação para a minha exposição que me deixou muito feliz


Uma cidade chamada Duviver (por Charles Möeller)

Eis um sonho estranho: uma onda gigante inunda para sempre o Rio de Janeiro,  ficarmos submersos a quilometros de profundidade,  e só a mão do Cristo Redentor  vez por outra  fura a água  em marés baixas e aponta  para a LUA!
Daqui a  mil  anos,  uma expedição alienígena vem à TERRA justo numa noite de maré baixa e escolhe “ A Cidade do GIGANTE que aponta para a LUA” como objeto central de suas investigações.  Uma grande “Expedição ALIEN” espalha-se entre os destroços para o estudo,  escafandros, submarinos, arqueólogos, oceanógrafos, todos de uma civilização mil anos à nossa frente, todos empenhados em nos decifrar.
Um  Alienígena destemido vai mais fundo e encontra  uma placa azul já carcomida pelo sal , mas que ainda permite ler:  RUA DUVIVIER. Uma pista, finalmente! Esta cidade submersa pertenceu então a uma mulher chamada Rua, cujo sobrenome é estranho mas parece nome: Duvivier.  É isso!

Mas  quem foi esta essa “Imperatriz?” Quem era, que poder tinha, por que seu nome é o que sobrou dos escombros de uma civilização? Que era a mulher chamada Rua Duvivier?

ANOS se passam, pouco se descobre, mas num  outono de vazante  são revelados outros artefatos que levam em si o estranho e belo  nome, uma assinatura  ‘Duvivier’. Telas, esculturas em bronze de atletas, arte? Uma Princesa chamada Isabel. Mas agora o nome que assina tudo não é mais Rua, é Edgar. O que RUA e Edgar eram? AMANTES? PAI e FILHA? Reis e rainhas que engendraram  uma princesa de nome Isabel? Ao nascer a princesa, O Rei Edgar terá decretado festas e presentes como estátuas de Deuses Olímpicos  foram enviados à recém-nascida?  
Mais anos se passam, a expedição continua, e um novo achado:  uma espécie de morada, oficina talvez, lugar onde faziam artefatos, arte? Milagrosamente a agua não entrou naquele nicho que foi protegido por um  enorme morro que as pesquisas indicam chamar-se Rocinha.  ROCINHA desabou como tudo, mas sem notar, manteve perfeito  estado aquela espécie de  abrigo anti-apocalipse, e nele estavam tantos segredos guardados, esculturas em ferro,  mármores, cobres,  rabiscos em pastel conservados milagrosamente  e em aparente perfeito estado.
Um  novo grande mistério:  tudo ali levava aquele nome, o nome da Mulher Rua, a  caligrafia em assinatura do cônjuge da Rua Mulher,  Edgar Duvivier. Mas tudo era tão distinto, os objetos não se pareciam em nada uns com os outros, que testes de DNA ou o nome que darão daqui a mil anos foram  feitos, e o resultado espantoso era:  não havia outro, era um só o indivíduo por trás de todos os artefatos.  O lugar seria  um templo espiritual? Parecia protegido por sereias de ferro, bailarinas que giram a um simples toque, telas diversas que se entreolhavam de parede a parede, estranhas cabeças de acrílico que acendem e dizem coisas quando os arqueólogos se aproximam... E instrumentos musicais, aqueles velhos e primitivos pianos, violões, saxofones,  ao lado de gravações em matéria rudimentar como CDs e Vinil (o pré-histórico vinil), tudo aparentemente executado pelo estranho Marido da Dona Rua.
Dona RUA deve ter morrido jovem, pois ela não volta a aparecer no mundo do viúvo Edgar. Os pesquisadores do futuro seguem observando, catalogando, até cansarem-se e entenderem que aquilo era apenas ARTE, e portanto, abandonam a pesquisa e vão procurar coisas mais importantes, como bombas, armas, epidemias.

É assim que eu vejo o EDGAR DUVIVER : Um enigma de muitas faces, que no fim das contas, após todas as perguntas óbvias sobre se é quadro, se é escultura, se é filme, se é música, se é fotografia, conclui-se que não é nem enigma, é apenas: ARTE.  Lembro-me do dia em que Edgar  me escreveu um email  dizendo ter visto  viu uma peça minha e que adoraria filma-la! Eu pensei , filmar? Mas ele é o saxofonista, não? Não é o músico e escultor? Não o conhecia, apenas sabia dele.  Marcamos uma café da manhã e senti que eu estava enganado:  nós nos conhecíamos sim, e há muitos e muitos anos, milhares deles. Mas eu jamais havia me aproximado de verdade de um ser  tão artístico como o Edgar; ele nasceu numa família de artistas,  quase um  FILHO DE RODIN E CAMILLE Claudel cariocas, que criaram seus filhos pra a Arte: EDUARDA,  ELEONORA e  EDGAR nasceram num  mundo magico,  crescidos num castelo de esculturas , musica , pintura.  Saraus eram uma constante no Castelo,  poetas, artistas e arquitetos faziam parte daquela  fábula real.


Edgar realmente faz “de um tudo”: toca, pinta , esculpe, escreve, faz filmes e vídeos,  e é a melhor das companhias  pois adora falar do que mais fascina a mim, Arte.  Edgar é  todos estes artistas  e nenhum deles.  E multifacetado para usar uma palavra óbvia, mas se redescobre a cada estimulo novo, a cada bola de cristal encontrada num brechó em ny, a casa rodopio da bailarina num ensaio de teatro, a cada caminhada  na orla do Rio ao anoitecer.  Ele é, como eu tentei descrever acima, uma cidade submersa, onde há bairros absolutamente distintos, onde  ruas escuras e lodosas convivem com praias solares;  arranha-céus e casinhas de palha numa ilha qualquer. Assim múltiplo,  ED permite a subversão da matéria:  com ele o  mármore é leve e o ferro... dança!


O que de imediato intriga no Edgar é que ele não é uma tendência, um estilo, uma fase;  não deve ser olhado por uma  ótica reducionista, isso o mataria como artista. Interessa ver nele a extravagancia de um artista em movimento, onde os materiais se misturam sem preconceitos. Ele produz  o que  vive no dia-a-dia, e com velocidade incansável, como quem precisa arrancar aquilo da cabeça tal fosse uma enxaqueca. O estado é de ebulição, ele parece viver a 100 graus na sombra, embora ele tenha a fala mais mansa possível e a calma dos apaziguados mortais.  

Os alienígenas irão descobrir: não são tantos os Duviviers, não há tantos amantes para aquela mulher chamada Rua, não houve uma multidão de amantes que ficaram, viúvos: eram todos um só,  uma única cabeça que acende e avisa: sou a coletânea de uma vida !
Essa exposição é uma cidade chamada  Edgar,  e tudo que vocês verão são  RUAS que moram dentro da alma dele, desde os rabiscos infantis,  a serie solitária em pastel e acrílico,  o mosaico de cores e luzes das favelas acendendo janelas,   BAILARINOS de ferro que dançam ,  atletas em pleno movimento, mármores tocáveis ,  sereias que saltam e cantam canções de sua própria autoria; um Edgar inteiro e aos pedaços, simples assim, complicado assim, como uma grande CIDADE que não dorme . E o Rio ainda não afundou!

Charles Möeller